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| "O espírita não pode ser um conservador" Entrevistado: José Rodrigues Em: Junho de 2010
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“O espírita não pode ser conservador por natureza, de maneira nenhuma. Se todos nós admitimos o princípio da liberdade, ao qual está ligado o da igualdade, devemos incluir também o da justiça. E como um fator unindo estes três princípios, está a ideia da fraternidade.” Esta afirmação, dentre outras, demonstra que mesmo depois de mais de 20 anos, o pensamento social espírita de José Rodrigues (1) permanece atual, vivo, como se fosse hoje. A presente entrevista que o PENSE republica, foi concedida pelo jornalista, economista e cofundador deste site ao jornalista Itacir Luchtemberg, para o periódico espírita “O Imortal”, de Cambé-PR. Ela é parte integrante da edição de dezembro de 1986, ano 34, nº 396. Veja a seguir a íntegra da entrevista:
Jornalista há muitos anos — tendo trabalhado como redator econômico e editor de Economia em jornais santistas — José Rodrigues, além de redator do jornal “Espiritismo e Unificação” (2), é também dirigente da Dicesp - Difusão Cultural Espírita, editora que tem auxiliado a ampliação do debate em nosso meio, graças ao pioneirismo e a coragem de colocar ao público espírita títulos de grande atualidade, como “Espiritismo e Política”, de Aylton Paiva, “O Poder no Movimento Espírita”, de Jaci Regis, e tantos outros. Nesta entrevista, concedida ao “O Imortal”, José Rodrigues mostra-se polêmico, mais uma vez, mas não deixa de transmitir a simpatia daqueles que se sabem movidos pelo amor à verdade, pelo respeito ao pensamento adversário, pelo desejo de contribuir para o engrandecimento de todos.
O Imortal - Como você vê a questão da representatividade do movimento espírita no meio social? José Rodrigues - Qualquer grupo ou movimento organizado que emita sua opinião, deve deixar bem claro que tipo de representatividade possui, quais as pessoas que participam daquele grupo, nunca ninguém falando em nome do outro. Nós aqui, por exemplo, vamos falar em nosso nome. Acho bom, no Espiritismo, a gente não ter uma representatividade muito organizada, pois isso è perigoso. Quase todos os grupos que pretendem ter representatividade acabam falando em seu nome daquilo com que você não concorda. Assim, devemos deixar bem claro que os grupos que se organizam — as entidades ou movimentos dentro do movimento espírita — falam em seu nome. É preciso que isso fique bem caracterizado.
O Imortal - Na época da campanha pelas Diretas-já (3), o jornal "Folha Espírita", de São Paulo, dirigido pelo deputado Freitas Nobre (4), fez uma pesquisa para saber a opinião dos espíritas sobre o assunto. A constatação foi, até certo ponto surpreendente, pois a imensa maioria dos espíritas se declarava favorável às eleições diretas. Isto, no seu entender, revela um avanço político dos espíritas, acabando com aquela ideia, que geralmente se tem, de que o espírita é, essencialmente, conservador?
José Rodrigues - O movimento espírita passou, também, por uma fase de repressão às ideias. Houve, nesses últimos 20 anos, muita contenção e, no início, pode-se mesmo dizer que muita repressão. O Movimento Universitário Espírita de Campinas-SP, por exemplo, foi praticamente reprimido pelo movimento espírita (5). O Jacob Hollzmann Neto (6) se afastou do movimento e resolveu desenvolver suas próprias ideias noutro ambiente, pois não encontrava campo no meio espírita.
Agora, com esse processo de abertura no Brasil, o movimento espírita também foi atingido. O espírita não pode ser conservador por natureza, de maneira nenhuma. Se todos nós admitimos o princípio da liberdade, ao qual está ligado o da igualdade, devemos incluir também o da justiça. E, como um fator unindo estes três princípios, está a ideia da fraternidade. Veja que já estamos entrando, aí, no campo doutriná¬rio, pois a liberdade, a igualdade e a justiça, unidas pelo sentimento de fraternidade, que vem com a compreensão de uma vida superior, segundo as informações que a gente tem da imortalidade da alma, de reencarnação etc., ganham uma realidade muito mais concreta do que a de muitos movimentos idealistas. Isso nos dá uma outra compreensão da própria vida e da participação social, porque nos ajuda a evitar os partidarismos, a formulação de fronteiras, de nacionalismos extremados, pois passamos a ver a Terra toda como uma família.
Veja, por exemplo, a questão do pacifismo. Os maiores obstáculos que ele enfrenta dizem respeito a concepções estreitas, sectárias de pátria, de povos etc., o que pode ser extirpado quando os homens compreenderem o mecanismo da reencarnação, pois passarão a entender que todos são iguais em essência, separados por necessidades evolutivas, mas ligados por necessidades comuns da própria evolução. Isso mostra perfeitamente que o conteúdo da Doutrina não nos pode tornar nem tradicionalistas, nem reacionários. Nós temos princípios renovadores que nos balizam.
O Imortal - Ironizando os resultados da pesquisa da "Folha Espírita", o jornal "Folha de S. Paulo" comentou que os espíritas mostravam-se, assim, um pouco mais preocupados com as coisas da Terra, deixando um pouco de lado as coisas do céu. Você acha que hoje os espíritas estão mais preocupados com as coisas da Terra?
José Rodrigues - Eu acho essa preocupação extremamente necessária. Nós passamos aí um período em que o plano espiritual foi o mais valorizado, em detrimento do plano material, do nosso planeta Terra. Fazendo-se um estudo sobre os fluidos, vamos ver que eles se encontram em todos os espaços do planeta. O chamado plano espiritual não deixa de ser também um plano material, porque ele é constituído também de fluidos, que os espíritos manipulam. Os espíritos trabalham com eles, materializando-os ou tornando-os etéreos, de modo que o futuro fica assim antecipado para nós todos.
A matéria é um elemento de um valor imprescindível à evolução do espírito. Ela não é, todos nós sabemos, um fim em si mesma, mas sim um instrumento de realização, de desenvolvimento das potencialidades do espírito. É fundamental, por isso, que expliquemos porque estamos preocupados com uma ação social. É porque o espírito encarnado tem a mesma missão do espírito desencarnado. Não há um corte nesta trajetória do espírito. A vida é uma só, um constante existir. O espírito encarnado está com os mesmos desafios do espírito desencarnado, é um processo de evolução. Assim, nós temos mesmo que nos preocupar com o nosso momento.
Ainda há pouco vimos um trabalho, na revista Visão (7), sobre a aplicação da informática na recuperação de doentes. Este trabalho vem bem a propósito porque nós temos a tendência de achar que a humanidade não evoluiu, que ela é egoísta. Esta é uma visão parcial do mundo. Eu acho que a humanidade de hoje é bem melhor do que a de ontem e a de amanhã será bem melhor do que a de hoje. Se a humanidade não tivesse evoluído, certamente já teria se autodestruído. Eu acho que nós estamos caminhando para uma vida melhor, não para a destruição. Esse trabalho, eu dizia, mostrava como os doentes, que se encontram praticamente imobilizados, podem se comunicar com os médicos através do computador. Isso é um avanço extraordinário. E muito fácil a gente falar no amanhã, no plano espiritual e condenar o homem. Devemos é valorizar o momento presente, acabando com esse clima místico que ainda existe entre nós.
O Imortal - Esse misticismo que impregna o movimento espírita no Brasil não teria sido estimulado, manipulado pelas classes dominantes, no sentido de — à maneira do que se fez com quase todas as religiões — fazer do Espiritismo um ópio para o povo?
José Rodrigues - Honestamente, eu não chego a tanto, de acreditar que isso tenha sido algo pensado, no sentido de subjugação. A força do tradicionalismo é muito forte. O religiosismo está nas nossas vísceras. E é claro que todas as ideias que instabilizam os conceitos tradicionais causam muita perturbação, muita reação. Há uma tendência à reação se você, de uma maneira ou de outra, vê uma perspectiva de mudança naquilo em que você crê, em que você deposita tudo, todo o seu ser. Mas não há outro caminho, ele é irreversível. A própria juventude que se aproxima do Espiritismo encontrou nessas ideias, nesse processo de abertura, uma verdadeira tábua de salvação. É o último trem que saiu da estação e esta juventude tomou, senão ficaria a pé na estação e desistiria da viagem. (8)
O Imortal - Dizem alguns filósofos do social que a sociedade ideal seria aquela formada pelos homens de Marx e Kardec, pois se falta à doutrina marxista substância espiritual, faltaria ao Espiritismo substância social. Uma síntese das duas doutrinas seria o ideal. Você concorda com isso?
José Rodrigues - Eu simpatizo muito com esta ideia. Marx veio valorizar fundamentalmente o papel da mão-de-obra. Esse desafio que nós falamos dos elementos materiais, este processo dialético da história fundamentado na matéria, é científico. Não é uma elaboração vazia, um idealismo fora da nossa realidade. Mas, evidentemente, Marx não teria a força suficiente, sozinho, de mobilizar as consciências, justamente porque o homem de Marx e um homem finito, ao passo que o homem de Kardec, como diz Humberto Mariotti, é um homem infinito. (9) Isso é uma verdade, como são verdadeiras as relações da matéria. Mas existe uma extensão da vida, que Kardec complementa. Realmente, os dois se complementam. Claro que não há nisso uma conclusão única, pré-determinada. Não quer dizer que nenhum sistema que esteja aí seja o sistema ideal. A dialética espírita é que vai descobrir os caminhos dentro desta realidade do homem , do ser biológico e do ser espiritual. Só um processo de discussão, de liberdade, de debates, é que vai apontar o que é melhor em cada momento. Esses princípios são, sem dúvida nenhuma, uma grande contribuição para o homem.
O Imortal - Certo autor escreveu que o Espiritismo — assim como todas as por ele chamadas de religiões racionalistas, objetivas — apareceu como uma reação da burguesia ao desprestígio das religiões tradicionais que viam seus dogmas irracionais contestados peto desenvolvimento das ciências. Assim, perdidas as ilusões da vida eterna e desacreditadas as concepções nebulosas da religião tradicional, tenderia a haver um crescimento das reivindicações sociais, o que ameaçaria o domínio da burguesia. O Espiritismo apareceu, então, como uma mão-na-roda, pois pretendia provar, quase que materialmente, cientificamente, a existência da vida no além, o que acabou servindo novamente à burguesia no seu intento de adiar as reformas, pois voltava a dar ao homem a ilusão de que tudo seria melhor numa vida posterior.
José Rodrigues - Se houve esta intenção, desta vez eles tomaram o bonde errado. Porque o Espiritismo não é um movimento religioso, mas sim um movimento de ideias. O Espiritismo, conforme Kardec cansou de mostrar, está na natureza e aquilo que está na natureza será, cedo ou tarde, descoberto e reconhecido como verdade. O Espiritismo não criou as leis de Deus, ele está nos ajudando a descobri-las. Se assim entendermos o Espiritismo, veremos que as leis que ele revela poderão ser objeto de aprofundamento, mas servirão para todas as pessoas. Elas não são contra o rico e a favor do pobre. Elas são a favor do homem. E o homem, esteja onde estiver, em qualquer situação social em que se encontre, vai se reconhecer nesta natureza mais profunda que o Espiritismo revela e as repercussões práticas disso só poderão ser a favor de uma melhoria nas relações humanas.
Não há nenhum movimento que possa se antepor ao movimento científico do Espiritismo, porque ele não é um carimbo, uma marca registrada que se põe nas pessoas, mas um conhecimento adquirido. Dentro das leis do espírito, nós vamos chegando a certos conhecimentos que são irreversíveis, que passam a se incorporar às nossas vidas. O Espiritismo é um movimento cultural, de ideias, que vai servir para todos.
Notas do PENSE
(1) José Rodrigues (1938-2010) foi repórter e editor de Economia do jornal diário santista “A Tribuna”, de 1969 a 1983. Posteriormente, assumiu a assessoria de comunicação da Associação Comercial de Santos e editou por muitos anos o periódico mensal “Carta ACS”, órgão de divulgação da associação, dirigido ao empresariado santista. Antes de seu passamento, era correspondente do jornal paulistano “Valor Econômico”.
(2) Fundado em 1962, o periódico santista “Espiritismo & Unificação” fez história pela sua singular postura editorial extremamente crítica ao religiosismo do Espiritismo brasileiro, em defesa de uma cultura espírita baseada nos postulados kardequianos e antenada com a contemporaneidade. Dirigido por Jaci Regis e José Rodrigues, circulou até 1987, quando foi sucedido pelo jornal de cultura espírita “Abertura”.
(3) A campanha das Diretas-já foi um movimento popular de luta por eleições presidenciais livres e diretas ocorrido em 1963 e 1984. Milhares de pessoas foram às ruas, mas se viram frustradas pela aprovação da Emenda Dante de Oliveira que aprovou a realização de eleições indiretas, sem o voto popular. Tancredo Neves foi eleito presidente, derrotando Paulo Maluf com expressiva votação no Colégio Eleitoral.
(4) José de Freitas Nobre (1921-1990) exerceu cinco mandatos como deputado federal pelo PMDB. Foi presidente do Sindicato de Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo em duas gestões (1949-51 e 1955-59) e vice-prefeito da cidade de São Paulo, na última gestão de Prestes Maia (1961-1965). Além de líder espírita, foi fundador/editor do periódico mensal “Folha Espírita” e autor de várias obras espíritas.
(5) O MUE - Movimento Universitário Espírita, fundado em 1962, por decisão do Conselho Deliberativo da USE - União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo, tinha como objetivo inicial a divulgação espírita no meio acadêmico. No final dos anos 1960 disseminou-se por todo o País e assumiu um caráter mais social e político, sob influência do pensamento filosófico dos pensadores argentinos Manuel S. Porteiro (1881-1936), Humberto Mariotti (1905-1982), da doutrina marxista e também da expressiva liderança de Adalberto Paranhos, de Campinas-SP e Armando de Oliveira Lima, de Sorocaba-SP. De visão assumidamente laica, posicionou-se contra o religiosismo e a alienação política do Espiritismo brasileiro, bem como sua estrutura autoritária e burocrática. Foi proibido de falar em nome da USE e se extinguiu em 1973.
(6) Jacob Holzmann Netto (1934-1994), o maior orador espírita de sua geração, foi fundador da Comunhão Espírita Cristã, de Curitiba-PR. Natural de Ponta Grossa-PR, formou-se em Direito (1958) e em Psicologia (1972), atuando como psicólogo até seu passamento. De oratória vibrante, cativante e substanciosa, ganhou vários cursos de oratória em nível estadual e nacional. Seu discurso, não-religioso, era marcado por uma profunda visão filosófica e sociológica que o fez se aproximar do MUE. Por conta de seus posicionamentos doutrinários, foi marginalizado pelo movimento espírita, do qual se afastou no início dos anos 1970. O MUE publicou uma conferência sua sob o título “Espiritismo e Marxismo”, disponibilizada em edição digital por este site, no link Livros.
(7) A revista Visão era uma revista semanal que circulou de 1952 a 1993. Tornou-se, nos anos 1960 e 1970, um importante veículo jornalístico, uma referência nacional em cobertura jornalística e econômica. A partir de 1974, passou a ser dirigida pelo empresário Henry Maksoud, adotando um perfil editorial mais liberal e conservador.
(8) José Rodrigues faz referência a um segmento da juventude espírita da época responsável pela realização de uma série de eventos, confraternizações e atividades doutrinárias de caráter mais crítico e progressista, como a Comjesp - Confraternização das Mocidades e Juventudes Espíritas do Estado de São Paulo (1982), o I Encontro Sobre a Doutrina Social Espírita (1985) e várias confraternizações no leste e noroeste de São Paulo, assim como o movimento juvenil espírita Novos Rumos (1986), no Paraná.
(9) Ver “O Homem e a Sociedade Numa Nova Civilização”, de Humberto Mariotti, livro lançado na Argentina, em 1963, sob o título “Parapsicología y Materialismo Histórico”. Esta obra monumental também está disponível por este site no link Livros.
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