| |
| Da música a Kardec Escreve: Eugenio Lara Em: Fevereiro de 2009
|
| Música para ouvir no trabalho Música para jogar baralho Música para arrastar corrente Música para subir serpente Música para girar bambolê Música para querer morrer Música para escutar no campo Música para baixar o santo Música para ouvir Música para ouvir Música para ouvir (Arnaldo Antunes)
Apesar de preferir rock, folk, música eletrônica e jazz, adoro música erudita. Aprecio muito vários compositores desse gênero musical. Dos mais antigos, são três: Corelli, Vivaldi e Bach. Gosto mais de Corelli. Dá para sentir na sua música um certo clima medieval, ainda que tardio.
Ouço Chopin e Liszt, dentre os autores que mais compuseram peças para piano. Os românticos alemães Schubert, Wagner e, principalmente Beethoven, o maior de todos. É o que mais gosto, desde criança: Beethoven, o atormentado e insuperável Beethoven, o maior, acima de todos que já passaram por esse planeta. Já Mozart é impressionante, cuja história nos remete ao princípio da reencarnação, pois que aos três anos de idade já tocava piano de ouvido e pouco tempo depois passou a compor e a reger.
Tchaikovsky, Mussorgsky, Stravinsky e Prokofiev, os russos que tanto venero. Principalmente o último, autor de vários temas que caíram no gosto popular, como a sinfonia que fez para o conto popular russo Pedro e o Lobo e a histórica parceria dele com Walt Disney. Apreciar um Kandinsky, um Miró, os cubistas ao som de Quadros em Exposição , de Mussorgsky, é uma experiência sensorial fascinante. Esse aí é um compositor conhecido dos velhos rockeiros por conta da adaptação dessa peça musical pela banda inglesa de rock progressivo Emerson, Lake and Palmer, cujo som fundia rock e música sinfônica com boas pitadas de jazz.
Curto Edgar Varèse, Stockhausen e John Cage, os eruditos heterodoxos, revolucionários, com seu som experimental, de vanguarda. E o santista, portanto um ilhéu como eu, Gilberto Mendes, o nosso mais legítimo representante da chamada música nova. Que ao lado de Carlos Gomes e Villa-Lobos, formam para mim o grande trio de compositores eruditos brasileiros, abarcando assim várias épocas: são a nossa trindade musical.
Há muitos outros autores eruditos que de vez em quando ouço, mas esses aí sempre frequentam as gavetinhas de CD player, ou os tocadores de MP3 no computador.
Imagino o quanto deve ser chato um mundo sem música. Seria insuportável.
O gênero erudito sempre foi apenas para uma pequena elite. Ao povo sobrava a música folk ou religiosa. A erudita, bem distante. Se consumir música dependesse da elite, teríamos somente os cantos da natureza, o canto do corpo, da mente, como bem sabem os nossos indígenas.
Esse ranço de origem faz com que muitos adeptos da música erudita incorporem um certo verniz elitista e sectário, avesso a qualquer apelo pop. É esse mesmo sectarismo que põe em confronto as culturas popular e erudita. O que hoje, com a globalização, as experiências sonoras de vanguarda e o permanente intercâmbio cultural, deixa de ter sentido. A cultura musical é uma só. Sem antagonismo, sem oposição necessária já que muitos músicos talentosos, há um bom tempo, transitam do popular ao erudito, sem nenhum preconceito. Basta ouvir Egberto Gismonti, Phillip Glass e Ryuishi Sakamoto para conferir essa assertiva.
KARDEC E A MÚSICA
Obviamente que o fundador do Espiritismo, Allan Kardec, como um típico europeu que era, preferia a música da elite. Talvez tenha mudado um pouco de ideia quando teve de viajar por toda a França e travar contato com pessoas mais simples, trabalhadores, convertidos ao Espiritismo. Os banquetes, que hoje seriam por aqui um churrasco ou feijoada, oferecidos ao Druida de Lyon, deveriam ser regados a música, como era comum em eventos confraternizativos. Ele deve ter ouvido muito folk francês, gaulês. Fosse aqui seria um samba, um chorinho ou moda de viola.
Logo no primeiro ano da "Revista Espírita" (1858) há uma referência a Mozart muito interessante, um desenho de sua casa em Júpiter, feito pelo grande dramaturgo francês Victorien Sardou por via mediúnica. Talvez, o primeiro caso clássico de psicopictoriografia na história do Espiritismo.
Os espíritos disseram a Kardec que a música em mundos mais elevados não tem termos de comparação com nossa música, “primitiva”, “rústica”, como se ainda fôssemos neandertais. Tirando o ranço elitista que perpassa essa questão, ela não perde o sentido já que se compararmos a música atual com a música tribal, por exemplo, a disparidade é gritante. A música é também a expressão evolutiva da sociedade. Quer analisar o nível evolutivo de determinada civilização? É só avaliar a sua música e o tratamento dado às mulheres, idosos e crianças.
MÚSICA CELESTE
Um espírito identificado como Rossini, conhecido compositor de óperas, dá um depoimento interessante em "Obras Póstumas", sobre o que chamou de música celeste . Segundo ele, as harmonias do mundo extrafísico não possuem termos de comparação com a nossa música. Diz ele: “É tão complexa a harmonia do Espaço, tem tantos graus que eu conheço e muitos outros mais que se me conservam ocultos no éter infinito” (1ª parte – Música Espírita).
A percepção dessa harmonia está condicionada à elevação intelecto-moral. Nesse sentido, o conhecimento espírita é um auxiliar imprescindível: “O Espiritismo, moralizando os homens, exercerá, pois, grande influência sobre a música. Produzirá mais compositores virtuosos, que transfundirão suas virtudes ao fazerem ouvidas suas composições” (Idem).
Música celeste é uma expressão bem mais aceitável do que música espírita, usada também por Rossini, um termo inconveniente, limitador e sectário. Música ou arte com temática espírita seria preferível.
Kardec usou a expressão arte espírita como sucessora da arte cristã, imaginando um mundo onde os princípios espíritas estariam razoavelmente assimilados pela cultura, algo ainda muito distante de suas prospecções. Todavia, em um mundo onde as idéias espíritas fossem realmente vivenciadas pelas pessoas, a adjetivação deixaria de ser necessária, principalmente pelo fato de a arte ser universal. Os rótulos devem ter apenas um sentido didático, representativo, simbólico, pedagógico mesmo. Uma questão de comunicação.
Pois a comunicação que a música promove é sempre universal. Não existe nem existiu civilização sem música, sem músicos. Ainda que, de certa forma, a música esteja nos sons e ritmos da natureza, do corpo. É daí que ela nasce de modo espontâneo.
Foi esse princípio básico, da universalidade da linguagem musical, que norteou o processo de comunicação com extraterrestres, naquele conhecido filme "Contatos Imediatos do Terceiro Grau". Mais universal do que a linguagem musical somente a comunicação telepática, mental, não-articulada, que é a linguagem dos espíritos, dos seres extrafísicos.
SEM IDENTIDADE
Como em qualquer segmento social, a música no movimento espírita tem sido um componente indispensável de confraternização, ainda que careça de uma certa identidade. Música ambiente é sempre bem-vinda, seja onde for. Música que cria um clima, adequada a reuniões espíritas, mas sem ser um suporte ritualístico, como se fosse muleta. Por que não tocar um jazz, música new age, um som instrumental nos centros espíritas? São sempre aquelas mesmas musiquinhas repetitivas...
É difícil notar a diferença de muitas músicas chamadas de “espíritas” das que se ouvem em programas católicos e evangélicos. Os mais antigos devem se lembrar da Canção da Alegria Cristã, o hino das mocidades espíritas, composta por Oly de Castro e Leopoldo Machado (*). Eu mesmo cantei em coro essa música, de característica bastante evangélica, sempre com um certo estranhamento. Parecia que estava fora de lugar, já que essa música combina mais com um templo religioso do que com um centro espírita. E tem grupo espírita que ainda mantém coral evangélico, música para oração, hinário: hino a Kardec, hino a Emmanuel, Ave Maria etc. O grau de religiosismo do Espiritismo brasileiro também pode ser medido pela audição da música que produz.
Reproduzo a seguir a letra da música citada:
Somos companheiros, amigos, irmãos Que vivem alegres, pensando no be mA nossa alegria é de bons cristãos Não ofende a Jesus, não fere a ningué
mA nossa alegria (a nossa alegria) É bem do Evangelho (é bem do Evangelho) Vibra e contagia (vibra e contagia) Da criança ao velho (da criança ao velho)
Mesmo entre perigos (mesmo entre perigos) Daremos as mãos (daremos as mãos) Como bons amigos (como bons amigos) Como bons cristãos.
Sempre ombro a ombro, sempre lado a lado Vamos trabalhar com muita alegria Pelo Espiritismo mais cristianizado Pela implantação da paz e harmonia!
A nossa alegria... etc.
MÚSICA EXTRAFÍSICA
Apesar desse religiosismo, a música, no Espiritismo, tem um tratamento interessante. Ela é abordada sob a ótica do progresso intelecto-moral. A música evolui, assim como o ser humano:
251. Os Espíritos são sensíveis à música? Queres falar da vossa música? O que é ela perante a música celeste, essa harmonia da qual ninguém na Terra pode ter idéia? Uma é para a outra o que o canto do selvagem é para a suave melodia; Não obstante os Espíritos vulgares podem provar um certo prazer ao ouvir a vossa música, porque não estão ainda capazes de compreender outra mais sublime. A música tem, para os Espíritos, encantos infinitos, em razão de suas qualidades sensitivas muito desenvolvidas. Refiro-me à música celeste, que é tudo quanto à imaginação espiritual pode conceber de mais belo e mais suave. (O Livro dos Espíritos – trad. Herculano Pires – LAKE)
Apesar do distanciamento evolutivo na apreciação dessa música celeste que os Espíritos tanto falam, é preciso considerar que se podemos extrair da natureza os sons e harmonias, seja como for, que dirá então uma comunhão mental e musical com paisagens extraterrestres, espaços interestelares? É uma fonte de inspiração inesgotável. Que som tem o buraco negro? Poderíamos perceber nas movimentações interplanetárias, a harmonia celeste, a música do universo?
Como seria a escala musical para um espírito desencarnado, liberto das vicissitudes materiais? Muito mais talvez do que alguém provido de ouvido absoluto . Um ouvido espiritual capaz de perceber, mas nem sempre apreender, todos os sons da natureza, física e extrafísica.
E a música extrafísica, como é? Não sabemos. Todas as descrições mediúnicas acerca do mundo dos espíritos não fazem mais do que repetir a maneira como percebemos os sons musicais, aqui nesse mundo. Provavelmente falta um sentido, uma linguagem para algo que desconhecemos. Sem isso não há como exprimir, entender. Talvez sentir.
Pois os grandes gênios musicais da humanidade foram aqueles que conseguiram romper a barreira dos cinco sentidos. Essa capacidade gestáltica, global, reservada às almas de sensibilidade física e extrafísica mais apurada, lhes permite transformar em notas, melodias, ritmos e harmonias a sua percepção, quem sabe, dessa música celeste de que os Espíritos se referem.
Essa capacidade, inata, não é determinada somente por fatores econômicos, sociais ou culturais. Ela surge tanto na favela quanto na mansão, no palácio ou na periferia. O ser reencarnante traz consigo seus pendores, suas tendências, sua capacidade mental e intelecto-moral, fatores imprescindíveis em uma possível ruptura com os condicionantes materiais, na superação do que os espíritos chamam de vicissitudes da vida.
MÚSICA MEDIÚNICA
Há médiuns musicais, segundo a classificação de Kardec. O médium Jorge Rizzini é um dos mais conhecidos. Noel Rosa (1910-1937), o grande sambista, talvez o maior de todos os tempos, ditou várias canções através de Rizzini.
Esse é um dos aspectos mais interessantes da relação do Espiritismo com a música. Como qualquer forma de expressão, a música, na comunicação e expressão mediúnicas, tem na filosofia espírita um contraponto curioso. É como se a “inspiração” batesse em nossa porta. Quantas sinfonias e canções não foram compostas durante o sono, durante um insight, em transes mediúnicos, sonambúlicos?
Em estado de êxtase, muitos autores já compuseram peças musicais, suítes, canções. Não me refiro ao estado alterado de consciência, obtido mediante uso de drogas ou exercícios de mentalização. Mas à legítima inspiração mediúnica, elo de ligação entre o físico e o extrafísico.
João, na Ilha de Patmos, deve ter ouvido o soar retumbante das trombetas, em sua delirante visão apocalíptica. Há quem espere o soar de harpas pelos anjos ou a música mentalmente veiculada em puro arrebatamento, como foi o contato de Francisco de Assis com a natureza, com os pássaros. Nem mesmo o espírito André Luiz, em suas descrições extrafísicas, conseguiu transmitir o efeito que dá a percepção da música fora dos limites materiais.
A música, assim como a mediunidade, confunde-se com a história da humanidade, com o progresso intelecto-moral, psíquico.
CATALISADOR
A música não é transformadora, revolucionária, por si só. Ela funciona apenas como um catalisador. Daí a sua censura em ditaduras, como foi o caso da proibida canção de Geraldo Vandré “Pra não dizer que não falei das flores”. E o seu uso em grupos políticos, em movimentos revolucionários, no bradar da "Marselhesa" (La Marseillaise) durante a Revolução Francesa ou no hino da Internacional, pelos comunistas.
Pois foi a música que reuniu mais de meio milhão de jovens em 1969 no Festival de Woodstock. Três dias de “paz e amor”, com seu ápice na versão elétrica do hino dos Estados Unidos pelo grande gênio da guitarra, Jimi Hendrix.
E também foi a música que me aproximou do Espiritismo. A vinculação das canções do beatle George Harrison (1943-2001) com a filosofia oriental, indiana, colocou-me em contato com a imortalidade, a reencarnação, com uma forma de espiritualismo bem mais avançada e sofisticada do que o catolicismo do qual fui formado. Daí flertei com a teosofia, rosacruz, yoga, hare krishna, umbanda e posteriormente me aproximei da obra de Kardec. Após um ano de estudo contínuo de sua obra básica, tornei-me espírita ou kardecista, se preferirem, em 1º de janeiro de 1979. Devo isso ao George Harrison. Foi ele, com a sua música, que me abriu a mente para novos horizontes.
Por exemplo, em "Within You Without You", da obra-prima dos Beatles, "Sgt. Pepper’s" [1967], vemos um Harrison bem introspectivo, existencialista, onde faz evidente alusão à transcendência espiritual:
Quando você tiver enxergado além de si mesmo Talvez então você descubra que lá a paz de espírito lhe espera E chegará o tempo que você verá que somos todos um só E que a vida flui continuamente dentro de você e sem você
When you've seen beyond yourself then you may find peace of mind is waiting there And the time will come when you see we're all one and life goes on within you and without you.
E sua convicção deísta fica bem evidente em um de seus maiores sucessos, "My Sweet Lord", do álbum triplo "All Thing Must Pass" [1970]:
Meu Doce Senhor [Aleluia] Meu, meu, meu Senhor [Aleluia]
Hm, Meu Senhor [Hare Krishna] Meu, meu, meu Senhor [Hare Krishna] Oh, hm, Meu Doce Senhor [Krishna, Krishna]
Agora, eu realmente quero ver-te [Hare Rama] Realmente quero estar contigo [Hare Rama] Realmente quero ver-te, Senhor [Aaah] Mas, leva tanto tempo, meu Senhor [Aleluia]
My sweet Lord [Hallelujah] My, my, my Lord [Hallelujah]
Hm, my Lord [Hare Krishna] My, my, my Lord [Hare Krishna] Hm, my sweet Lord [Krishna Krishna]
Really want to see you [Hare Rama] Really want to be with you [Hare Rama] Really want to see you, Lord [AhhhAhhhh] But it takes so long, my Lord [Hallelujah]
Boa parte das letras de Harrison apontam para a realização espiritual, a autoconsciência na busca do autoconhecimento, como em "The Inner Light" [A Luz Interior], do álbum "Revolver" [1966]:
Sem sair da tua porta Tu podes conhecer todos as coisas do mundo Sem olhar pela tua janela Tu podes conhecer os caminhos do paraíso
Without going out of your door, You can know all things on earth without looking out of your window, you can know the ways of heaven
Podemos observar em muitos outros músicos e bandas a presença de idéias próximas, afins com a filosofia espírita. Em alguns segmentos musicais, como o rock progressivo, o rock psicodélico e o neo folk, vários princípios aceitos pelo Espiritismo, como a reencarnação, evolução, mediunidade e a imortalidade da alma servem de mote, de inspiração, de referência.
Atualmente, no movimento espírita brasileiro, temos a banda de pop rock Alma Sonora, de Curitiba-PR, que faz um som agradável e interessante, com letras inspiradas nos princípios espíritas. Na década de 1980 se destacam Bolinho de Carne com Beringela e o cantor e compositor Moacyr Camargo, que continua na ativa. Todos são kardecistas. Mas, isso é tema para um outro estudo...
(*) Leopoldo Machado (1891-1957) foi o grande incentivador das mocidades espíritas na década de 1940. De formação protestante, Leopoldo introduziu a música, a poesia e o teatro em seu trabalho junto à juventude espírita.
Traduções revisadas por Vicente Lara Jr.
Eugenio Lara é arquiteto, design gráfico e um dos coordenadores do site PENSE – Pensamento Social Espírita. E-mail: eugenlara@hotmail.co m
|
|
| |
|