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  • Destruição criativa e desigualdades
    Escreve: José Rodrigues
    Em: outubro 2008

  • “Para todos há lugar ao Sol, mas com a condição de que cada um ocupe o seu e não o dos outros”.
    (Allan Kardec)


    As várias fases pelas quais passa o capitalismo, como um centro dinâmico de difícil controle, encontra-se em franca discussão no mundo, vencidas as fases da ‘guerra fria’, do sistema bipolar político e econômico, da reunificação da Alemanha com a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética. Mas tanto lá, nos idos do princípio do Século 20, com a Revolução Russa, quanto cá, tempos de um capitalismo financeiro desenfreado, põe-se de lado o fator-homem, a natureza nossa, com o estímulo de levar vantagem, ganhar no mole e culpar a outrem pelas mazelas pessoais e coletivas.

    Das fases fisiocrática e mercantilista da economia, ao capitalismo industrial, nascido em sequência à revolução trazida pelas máquinas a vapor, pouco antes do findar do Século 18, permeia o espírito da acumulação. As inovações aceleradas com a tecnologia da informação praticamente nada mudaram no sentido animal da nossa espécie, ao contrário, tem sido graças a elas que os cálculos de ganhos, infinitesimais na unidade, porém grandiosos no todo, são aplicados ao hoje mundo globalizado das finanças. É um sistema que atua nas 24 horas do dia, atento aos fusos horários, à abertura e fechamento dos mercados, às instabilidades políticas e econômicas de cada país, com fins de tirar o melhor partido. O on-line em nada se interessa se alguém vai à bancarrota, se apostou mal, se especulou com informações erradas. Ordens de compra e venda não têm qualquer vínculo ético ou moral.

    A abordagem do tema vem a título de avaliação de tendências. De fato, o próprio sistema de ampla liberdade de iniciativas, sem apontar para o lado egoista do homem, está preocupado com o amanhã de si mesmo. Há pouco, as bolsas internacionais ‘balançaram’, ante a crise dos chamados subprimes do mercado norte-americano, com base em hipotecas de imóveis, pelos quais as famílias fizeram crescer suas dívidas e ampliar o consumo em geral. A ‘bolha’ estourou e os bancos centrais, para evitar uma quebradeira geral, socorreram os bancos emprestadores, talvez um paliativo.

    Convém um breve enunciado de números para melhor compreensão do tema. Em resumo, o sistema financeiro, entendido como finança pura, tem crescido muito acima do de bens físicos. Há liquidez no mundo (dinheiro farto), aliada à tecnologia da transmissão de dados, de tal modo que se formou um descompasso com a chamada economia real. Os ativos financeiros de todo o mundo, que em 1980 representavam 109% da produção real, saltaram para o equivalente a 316%, em 2005. Neste ano, nos Estados Unidos, a proporção atingiu a 405%. A dívida das famílias representava 135% do PIB daquele país.

    Os mercados costumam tornar-se fins em si mesmos, mediante sofisticações, seguidas de tentativas de reduzir riscos, mas quando a ambição domina, o irracional avança.

    Joseph Schumpter (1883-1950), economista austríaco, a propósito, está sendo muito lembrado nos dias recentes. Ele é o autor do conceito de “destruição criativa”, base do capitalismo, sistema que, para se manter de pé e em expansão, destrói hoje o que produziu ontem e assim o fará amanhã, com o que produziu hoje. Mas tanto o planeta está dando sinais de doença precoce, sob o ponto-de-vista físico, quanto um senso comum que se espalha, condena as desigualdades sociais. A pobreza, enfim, começa a incomodar neste mundo interativo. Ou seja, o rumo não pode ser o da acumulação, mas o da repartição. Pelo menos das oportunidades.

    Espero que não esteja implícita neste texto uma idéia contrária ao espírito inovador, ao empreendedorismo, necessários e vindos como respostas à procura do bem-estar de cada um. A diferença entre uma coisa e outra está na motivação e nos fins que se procuram. Allan Kardec mostrou preocupação com essa aparente contradição, ao tratar da Lei de Conservação. Em comentário pessoal, ele diz que “se a civilização multiplica as necessidades, multiplica também as fontes de trabalho e os meios de viver (...). A natureza não pode ser responsável pelos vícios da organização social, nem pelas consequências da ambição e do amor-próprio”.

    Perguntas cruciais que teóricos do capitalismo fazem no momento podem ter aí um caminho para reflexão.

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    José Rodorigues - Jornalista e economista, integra o Centro Espírita Allan Kardec, de Santos (SP) e preside a Ação de Recuperação Social (ARS), entidade atuante no segmento de famílias de baixa renda. É um dos coordenadores do site PENSE – Pensamento Social Espírita. Texto originalmente publicado no periódico espírita gaúcho Opinião, em março de 2008.