Um site para exposição e construção do pensamento espírita no campo social. Santos - Brasil.
você está em "entrevistas"

RETORNAR
 

  • A timidez e a omissão fortalecem a injustiça social
    Entrevistado: Orlando Villarraga
    Em: 15 de outubro de 2003

  • Carlos Orlando Villarraga é um dos poucos espíritas que se preocupam com a questão ecológica, o bem-estar ambiental. Colombiano, radicado no Brasil, Villarraga reside em São José dos Campos (SP) e exerce a profissão de químico. De família espírita, escreveu o livro "La Conservación del Médio Ambiente Físico y Síquico", que o PENSE planeja lançar em edição eletrônica — obra rara no meio espírita onde o autor demonstra toda sua erudição, conhecimento técnico e doutrinário, que os leitores podem conferir nesta entrevista exclusiva. Ele destaca a contribuição do Espiritismo para ajudar a resolver as questões ambientais, em um mundo onde a consciência ecológica ainda é desmerecida. Para Villarraga, “a visão espiritual da vida nos convida a melhorar as condições sociais e ambientais do nosso planeta Terra”. Ele é bem crítico em relação aos alimentos transgênicos e defende uma efetiva participação das entidades espíritas federativas na discussão da questão ambiental. Leia a seguir a íntegra da entrevista.

    Pense (P) - Como tomou contato com o Espiritismo?
    Villarraga (V) -
    Meu pai era espírita e logo depois que a minha mãe se tornou espírita, eles fundaram a escolinha espírita para crianças “Senderos de la Esperanza”, em Bogotá, na Colômbia. Desde então, começamos a estudar a Doutrina Espírita. Estudávamos os livros editados pela CEPA chamados “El Espiritismo al alcance de los niños”. Valioso material que colocava os fundamentos da Doutrina Espírita em termos simples, de uma maneira didática para que nós, crianças, pudéssemos entendê-los.

    (P) - Poucos são os espíritas que se preocupam em correlacionar a filosofia espírita com a ecologia. A que você atribui isso?
    (V) -
    Penso que estes dois temas juntos pouco ou quase nada são estudados ou debatidos nos centros espíritas. No livro terceiro de O Livro dos Espíritos, se apresentam muitos dos princípios da ecologia. Nós nos preocupamos muito com o além, quando necessitamos resolver muitos problemas que acontecem aqui, no nosso planeta Terra, tendo como base o conhecimento espiritual. A filosofia espírita nos ensina as leis que regem as relações dos encarnados com os desencarnados, com os outros encarnados e com a Natureza. Também temos que estudar com mais detalhe a obra de Kardec. A primeira vez que morei no Brasil foi em 1991, quando se preparava a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, no Rio de Janeiro. Daí comecei a me perguntar como a Doutrina Espírita poderia contribuir num evento dessa magnitude. Poucos trabalhos tinham sido elaborados nessa área. Então, decidi estudar e pesquisar a obra de Kardec com o objetivo de entender como a Doutrina Espírita podia explicar e propor soluções sobre os problemas sociais, ambientais, econômicos e espirituais que estavam se desenvolvendo em nossa sociedade. O resultado dessa pesquisa foi o livro que escrevi sobre a conservação do meio ambiente físico e espiritual sob a visão espírita (“La Conservacion Del Médio Ambiente Físico y Siquico” – Editorial Rivail, Colômbia). Também para tentar mostrar a correlação que existe entre a Doutrina Espírita e a Ecologia, estou no processo de fundar o Instituto de Ecologia e Doutrina Espírita. A missão deste Instituto será a de integrar os fundamentos da Doutrina Espírita e da Ecologia para sensibilizar as pessoas com o objetivo de melhorar as condições do meio ambiente físico e espiritual do planeta Terra.
    (P) - Qual a expectativa de vida de nosso planeta? Os profetas do apocalipse estão certos quando afirmam que o fim está próximo?
    (V) -
    Depende do que nós fizermos durante os próximos 50 anos. De acordo com o relatório “O Estado do Mundo 2003”, do WorldWatch Institute, nós temos uma ou talvez duas gerações para mudar o rumo que levamos de degradação ambiental e exclusão social. Se continuarmos nessa direção atual, a miséria generalizada e o empobrecimento biológico tomarão conta do planeta, podendo levar ao colapso da sociedade e de nós como espécie. Temos, entre muitos outros, dois problemas MUITO sérios, cuja solução será crucial para o equilíbrio do nosso planeta: o aquecimento do planeta e a perda da biodiversidade. Na teia da vida do planeta Terra, nós, seres humanos, somos só uma espécie entre quase 1.5 milhão das classificadas pelos cientistas. Somos só uma entre as 10-100 milhões das estimadas que podem existir na Terra. Nosso sustento físico (alimento) depende da existência de outras espécies animais e vegetais. Destruindo o habitat, poluindo os diferentes ecossistemas e reduzindo a biodiversidade, a teia da vida vai ficando muito vulnerável. O que faz um ecossistema resistente é a diversidade de espécies que o conformam.

    (P) - Como podem ser dimensionados o efeito-estufa e a escassez de água no futuro?
    (V) -
    Podemos dimensionar o efeito-estufa no futuro pelos fatos que já estão acontecendo em todo o globo, como conseqüência do aquecimento do planeta. Nos últimos 30 anos a temperatura aumentou 0.44 graus centígrados. Esse aumento de temperatura leva a eventos climáticos mais extremos como o derretimento das calotas polares, o aumento do nível do mar e o aumento do número e severidade dos furacões. Em 1960, a espessura do gelo no Mar Ártico era de 2 metros aproximadamente. No ano de 2001, escassamente chegou a um metro!! O nível do mar aumentou 10-20 cm durante o século 20. Se continuarmos despejando gás carbônico e metano nos níveis atuais, os cientistas estimam que a temperatura do planeta pode aumentar de 1,4-5,8 graus centígrados durante o século 21. Isso significa que o nível do mar pode aumentar durante este século até quase um metro, o que provocaria o deslocamento de milhões de pessoas do litoral para áreas internas do território nacional.
    Com relação à água, existe um índice chamado de disponibilidade social de água que compreende todos os recursos de água doce (superficial e subterrânea) disponíveis relativo ao número de habitantes (m³/hab/ano). As Nações Unidas definiram que países com índices menores que 1000 m³/hab/ano estão com “estresse de água”. 35% da população do planeta já é atingida pelo estresse da água e a previsão é que para o ano 2025, 66% da população mundial esteja nessa situação, se continuar o aumento da população, o desperdício, a poluição da água e o desmatamento.

    (P) - Costuma associar-se a expansão da economia ao bem-estar dos povos. Está correta essa associação?
    (V) -
    Não está correta porque só considera um aspecto do bem-estar do ser humano: o aspecto econômico. O índice mais utilizado na economia para medir o sucesso da economia é o PIB (Produto Interno Bruto). Este índice mede todo o fluxo de dinheiro que se movimenta na economia do país. Porém, não faz diferença sobre o tipo de atividade que movimenta esse dinheiro. Por exemplo, a construção de cadeias, a compra de armas pelo governo, o tratamento médico de pessoas com câncer como conseqüência de fumar, o seguro pago pelos danos causados por desastres naturais, os gastos efetuados para tratar um vazamento de petróleo etc. Tudo isso aumenta o PIB. Recentemente surgiram outros índices que refletem melhor o bem-estar dos seres humanos. Foram desenvolvidos entre outros o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) e o GPI (Índice de Progresso Genuíno). O IDH é uma medida composta da expectativa de vida, o nível de educação e a renda per capita dos habitantes de um país. O GPI consiste em uma medida de 22 componentes econômicos, sociais e do meio ambiente.
    Nos Estados Unidos o PIB aumentou quase 100% durante os últimos 50 anos, porém o GPI caiu 45 % durante os últimos 20 anos.

    (P) - A contribuição que o Espiritismo pode oferecer à questão do meio ambiente se dá em nível ético ou filosófico?
    (V) -
    A contribuição da Doutrina Espírita se dá tanto em nível ético como em nível filosófico. Em nível filosófico, a Doutrina Espírita nos ensina as leis que regem o nosso relacionamento com os encarnados, com os desencarnados e com a Natureza. A Doutrina Espírita explicando a lei de causa e efeito e a lei de reencarnação nos leva a conhecer a magnitude da responsabilidade de nossos atos e pensamentos. Em nível ético nos lembra o nosso compromisso com o bem-estar do próximo e com a ação para tornar realidade a ajuda material e espiritual. Também essa conduta ética deve se refletir em novas leis e instituições. A visão espiritual da vida nos convida a melhorar as condições sociais e ambientais do nosso planeta Terra.

    (P) - Você acredita que um dia o mundo dos Espíritos será incorporado ao conceito ecológico de ecossistema?
    (V) -
    Não tenho dúvida que isso vai acontecer. Assim como já se está começando a considerar a economia como um subsistema da Natureza, no futuro a Natureza será considerada um subsistema do mundo dos Espíritos.

    (P) - Que correlação faria entre a consciência ecológica e a consciência espírita?
    (V) -
    Penso que só falta o elemento espiritual para que a consciência ecológica seja igual à consciência espírita.

    (P) - Como os centros espíritas podem contribuir para elevar o nível da consciência ecológica da sociedade?
    (V) -
    Temos que começar por nós mesmos nos centros espíritas. Temos que entender que estamos encarnados neste planeta e que o nosso principal trabalho está aqui neste mundo. Que encarnamos para contribuir a melhorar as condições físicas e espirituais da Terra. Se como disse Kardec em A Gênese, “a fraternidade deve ser a pedra angular da nova ordem social”, então devemos nos educar, educar os nossos filhos e educar os demais integrantes da sociedade nos princípios fundamentais que sustentam e incentivam a fraternidade com objetivo de promover as bases de uma nova ordem social. Esses princípios universais são a existência de Deus, a pré-existência e a sobrevivência da alma, o progresso contínuo, a lei de causa e efeito e a lei da reencarnação.
    Considero que nos centros espíritas devemos estudar e debater mais em detalhe os problemas sociais, econômicos e ambientais sob a ótica espírita. Devemos participar com outras ONGs nas campanhas que visam melhorar ou resolver algum problema específico da comunidade onde atua o centro espírita.

    (P) - Como analisa a questão dos alimentos transgênicos?
    (V) -
    A maioria dos trabalhos, na área dos transgênicos, foi motivada pelo lucro das empresas e não pela necessidade das pessoas. Por exemplo, foi desenvolvida uma soja transgênica que resiste especificamente ao herbicida produzido pela mesma empresa. Este tipo de tecnologia aumenta a dependência dos agricultores em relação a produtos patenteados. Os transgênicos também contribuem na redução da diversidade de espécies para a produção de alimentos o que faz que a nossa segurança alimentar fique mais vulnerável. Os transgênicos são um experimento em grande escala com os seres humanos, pois não sabemos as conseqüências a longo prazo que o consumo de organismos modificados geneticamente possam ter sobre a nossa fisiologia e metabolismo.

    (P) - Possuímos um dos ecossistemas mais ricos do planeta e, no entanto, a fome e a miséria ainda são flagelos a serem removidos. Qual sua visão a respeito?
    (V) -
    A fome e a miséria convivem com a opulência, a abundância e o desperdício como conseqüência de: 1) o egoísmo, a ambição e o orgulho de uma pequena parcela da população; 2) o comodismo, a omissão e a neutralidade de outra parte da população que prefere não intervir na discussão e solução dos problemas sociais e 3) a timidez e a ignorância da grande maioria da população para exigir uma melhor distribuição da riqueza, do bem-estar físico e do conhecimento do nosso planeta. A timidez ou a omissão diante da injustiça social a fortalece e a faz crescer.

    (P) - Como interpreta o Programa Fome Zero? Esse projeto poderia se desdobrar em outros como Sede Zero, Desmatamento Zero, Poluição Zero etc.?
    (V) -
    Acredito que o programa Fome Zero tem um valor muito importante para a sociedade porque colocou na agenda política nacional e internacional o grave problema da fome. Esse programa foi criado para combater a fome e as suas causas estruturais que geram a exclusão social. O sucesso do programa Fome Zero vai depender da implementação de soluções para eliminar as causas que geram as desigualdades e não que seja simplesmente um programa assistencial que crie dependência dos beneficiários. Esse programa podia se desdobrar em outros programas como os que você menciona e também poderíamos acrescentar os programas de Violência Zero, Analfabetismo Zero, Desemprego Zero etc.

    (P) - Que diferenças você vê entre o Espiritismo praticado na Colômbia e no Brasil?
    (V) -
    A diferença que vejo é no número de adeptos, o número de publicações espíritas e o tamanho das obras assistenciais, devido às diferenças do tamanho das populações dos dois países e também ao maior número de anos que vem sendo divulgada e praticada a Doutrina Espírita no Brasil.
    Porém, o que mais vejo são as semelhanças que existem entre o Espiritismo praticado em ambos países, como o estudo da Doutrina Espírita, a assistência social, a estruturação do movimento em nível nacional, o esforço pela publicação de obras espíritas e a existência de diferentes correntes de interpretação dos princípios da Doutrina Espírita.

    (P) - De que maneira instituições como a Confederação Espírita Pan-Americana, a Federação Espírita Brasileira ou o Conselho Espírita Internacional podem contribuir para o progresso ambiental? Seria possível chegar a um consenso no momento em que houver a necessidade dos espíritas se manifestarem socialmente?
    (V) -
    Essas instituições podem contribuir para o progresso ambiental da seguinte maneira:
    - Promovendo eventos que discutam os temas ambientais sob a ótica espírita.
    - Manifestando, através da mídia, a posição da Doutrina Espírita com relação aos problemas sociais, econômicos, éticos, espirituais e ambientais.
    - Utilizando para as publicações impressas, como livros, revistas, mensagens avulsos etc. papel reciclado e tintas que reduzem o impacto ambiental.
    - Publicando obras que analisem estes temas sob a ótica espírita.
    - Estimulando o estudo detalhado da obra de Kardec.
    - Educando o coração para a solidariedade e a fraternidade.

    E-mail: nator2002@aol.com