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| Gezsler defende mais diálogo com a sociedade Entrevistado: Gezler Carlos West Em: 18 de dezembro de 2002
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“O mundo, possui, hoje, um enorme abismo de diferenças tecnológicas e de capacitação humana, que propiciará, se não tomarmos medidas apropriadas, um processo de mutilação nos países mais pobres, em função da desigualdade na competição”. A síntese é do engenheiro e administrador de empresas, Gezsler Carlos West, presidente da Associação Brasileira de Divulgadores do Espiritismo –Abrade. Nascido em Santo Amaro da Purificação (BA), mudou-se para Recife, onde também é diretor do Instituto de Intercâmbio do Pensamento Espírita de Pernambuco. Nesta entrevista exclusiva para o PENSE, Gezsler responde a questões da atualidade econômica brasileira e mundial e diz ser um otimista quanto à obtenção de “dias melhores, acreditando em um posicionamento cada vez maior de nossa parte no campo da cidadania e da fraternidade”. Ressalva que ainda se faz um Espiritismo mais voltado para dentro das casas espíritas, com muito pouco diálogo com os vários segmentos da sociedade.
Pense (P) – Desde quando você milita no Espiritismo?
Gezsler (G) – Desde 1975, quando, após a leitura de O Livro dos Espíritos, tornei-me espírita.
P - Que tipo de literatura espírita mais o tem influenciado? Qual o motivo?
G – Todas. No início gostava mais da literatura focada na ciência espírita. Hoje, não tenho predileções específicas. Sendo um bom livro, já sou um candidato para a leitura. P - De quais instituições espíritas tem participado? Como?
G - Já participei de várias e atualmente, em termos de cargos, participo de duas:
a) Presidente da ABRADE (www.abrade.com.br) – Associação Brasileira de Divulgadores do Espiritismo; b) membro da diretoria do IPEPE (www.ipepe.com.br) – Instituto de Intercâmbio do Pensamento Espírita de Pernambuco.
P – Vc. é pernambucano de nascimento?
G - Nasci em Santo Amaro da Purificação-BA. No entanto, fui criado em Recife-PE, onde eu moro no momento. Nasci na Bahia e fui adotado por Pernambuco. Sou um “baiambucano”! Tenho grandes amigos e parentes na Bahia e sou muito grato ao povo pernambucano pela acolhida que me deram, propiciando-me grandes experiências e amizades.
P – Fale sobre sua formação profissional. No momento, que função exerce, profissionalmente?
G - Sou engenheiro e administrador de empresas. Sou empregado da Petrobrás, sendo que no momento desempenho um trabalho de modernização na gestão pública em nível estadual e federal.
P – Como analisa o presente quadro socioeconômico brasileiro?
G - Muito desconfortável para todos aqueles que acreditam na ética da fraternidade. Este País, com tantos recursos naturais, não poderia apresentar um quadro com 23 milhões de miseráveis e aproximadamente 60 milhões vivendo abaixo da linha de pobreza. Vejo tudo isto como uma grave conseqüência dos insistentes exemplos de egoísmo, indiferença e omissão de muitos de nós. No entanto, quero registrar aqui o meu otimismo por dias melhores, acreditando em um posicionamento cada vez maior de nossa parte no campo da cidadania e da fraternidade.
P - A existência de algumas dezenas de milhões de brasileiros vivendo em condições abaixo da linha de pobreza teria como causas um determinismo histórico ou reflete uma injustiça social?
G - Deus é amor e não carrasco! A miséria no Brasil é um reflexo direto do egoísmo de uma sociedade, pois temos plenas condições de cuidar bem do nosso povo. Vejo como uma clara injustiça social. Reflitamos: No último censo do IBGE percebemos que 90% da população brasileira é constituída de espíritas, católicos e evangélicos. Pergunto: se todos os citados têm a ética da fraternidade vivenciada por Jesus como um exemplo, qual a razão de nos permitirmos ter este deprimente quadro social? E olhe que nos outros restantes 10% sabemos que existem pessoas de alta seriedade ética vivenciando outras filosofias. Então, por que nos permitimos este quadro social?
P - No plano internacional há conflitos entre populações que vivem da extrema pobreza à satisfação ampla de suas necessidades. Como encarar essas diferenças sob uma visão espírita?
G - Vejo como uma amplificação dos problemas nacionais. O mais forte esquecendo o mais fraco ou muitas vezes explorando-o. É o nosso velho conhecido “egoísmo”. Já nos dizia o espírito Emmanuel: “O egoísmo é a grande chaga da humanidade”.
P - As práticas do chamado mercado ganharam amplitude com a queda do regime soviético. Ainda assim, as diferenças de renda dos países parecem continuar e, em alguns casos, até se ampliaram. Essa tendência poderá ser revertida com a mesma visão de vida e de mundo?
G - Quando o dinheiro passar a ser meio e não fim como é hoje, tudo irá melhorar.
P - Como você avalia o processo de globalização? Tende a reduzir as diferenças sociais entre os povos e nações, ou a ampliá-las?
G - Este assunto é polêmico. A faceta que mais me agrada no mecanismo da globalização é a inevitável proximidade entre os povos, que o mesmo propicia através do avanço da tecnologia. No entanto, temos que admitir, que o mundo possui hoje um enorme abismo de diferenças tecnológicas e de capacitação humana, que propiciará, se não tomarmos medidas apropriadas, em um processo de mutilação nos países mais pobres, em função da desigualdade na competição. Penso que a estruturação de blocos comerciais, o fortalecimento da ONU, um repensar todo o processo etc. serão medidas necessárias.
P - Os princípios do Espiritismo são compatíveis com o processo de globalização?
G - Já me referi sobre a globalização no item anterior. Uma palavra muito utilizada hoje em dia e que ganhou uma força maior com o advento da globalização é a “competitividade”. Ufa, hoje só se fala nisto! O Espiritismo possui como um dos seus pilares básicos a evolução, que pode ocorrer em um clima de “cooperatividade”, sem ter de um “engolir” o outro para “vencer no mercado”. Bom, os princípios espíritas nos convidam para colocar a “fraternidade” como eixo central de nossas vidas, em qualquer tipo de relacionamento. Logo, o atual “modus operantis” da globalização, onde o forte leva vantagem, não estaria em sintonia com a fraternidade. Temos que repensar e aprimorar o processo.
P - De que forma conciliar a liberdade de criar, inerente ao ser humano, com o papel do Estado, ante seu compromisso de prover a justiça e o bem-estar de todos os cidadãos?
G - Sou totalmente favorável a uma vivência democrática. Penso que o Estado, entenda-se aqui como sociedade, só deve atuar quando ocorra um desequilíbrio e a injustiça venha a prevalecer.
P - Ao responder à questão sobre como o Espiritismo pode contribuir para o progresso, feita por Allan Kardec, os Espíritos disseram, entre outras coisas: “Destruindo o materialismo, que é uma das chagas da sociedade...”. O pensamento espírita tem atendido a essa condição?
G - O pensamento espírita sim, através da lógica e da atualidade nos seus aspectos sobre a imortalidade da alma. O movimento espírita penso que ainda não, pois estamos em demasia “fazendo” Espiritismo para dentro das casas espíritas e “dialogando” muito pouco com os vários segmentos da sociedade.
P - O discurso espírita da imortalidade tem conteúdo suficiente para transformar a competitividade entre empresas e pessoas em objetivos de cooperação e solidariedade?
G - Conteúdo sim, pois fala de uma lei natural oriunda de Deus. No entanto, penso que a verdadeira melhoria do mundo será um trabalho coletivo, sem discriminações, onde o que prevalecerá é a figura do “Homem de bem”.
P – De que modo a tecnologia da informação pode contribuir para a redução das diferenças sociais vigentes no planeta?
G - O “Bem” pode se tornar mais ágil e conseqüentemente mais perto. Quantas belas iniciativas já não foram criadas com o advento da Internet? Temos um futuro promissor!
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