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  • O Desenvolvimento Econômico do Século 20 e o Lugar do Homem
    Escreve: José Rodrigues
    Em: Dezembro de 2000

  • Fruto das três revoluções industriais e dos avanços no campo dos direitos do cidadão, está se chegando ao conceito de desenvolvimento humano na avaliação dos países. O ser espiritual, contudo, ainda desconsiderado no senso comum da cultura geral,explica o longo caminho a percorrer para a conquista de uma justiça mais ampla e a aplicação da solidariedade em benefício do homem.


    Idéias, descobertas, iniciativas, movimentos, estão num suceder constante, de quantidade e qualidade, operando transformações individuais e coletivas, provocando novas relações sócio-econômicas e compondo a História. São cumulativos e seguem em intervalos sucessivamente mais curtos.

    Estamos na entrada de um novo século, pelo calendário gregoriano, permitindo-nos uma visão dos últimos 100 anos, e como ensina Vilfredo Pareto, economista clássico italiano, inexiste acontecimento econômico isolado, senão, sempre, vinculado a fatores políticos e sociais. Mais recentemente, a tecnologia tem desequilibrado as relações sociais de forma contundente.

    Assim, há um sem número de avenidas que poderiam balizar nossa apreciação deste período. São as das invenções, das transformações de produtos, do seu uso intensivo, dos grandes conflitos entre nações, das revoluções regionais com repercussão mundial, do aumento da população, da urbanização, dos meios de transporte e de comunicação, da formação dos blocos econômicos regionais e das grandes corporações internacionais do setor privado, marcadamente, as financeiras.

    Todas essas avenidas têm permitido velocidades crescentes, em veículos imaginários, de tal modo que a cada momento se percorre mais espaço em menos tempo. Certamente, o Ford Modelo T, da década de 20, manteve-se com as mesmas características por bons pares de anos. Hoje, os modelos mudam anualmente e no campo da tecnologia fina, há inovações diárias, reflexo de uma competição empresarial sem limites. A obsolescência, a substituição, impõem-se como normas de mercado, a escravizar o consumidor dito atualizado.

    Vamos viajar por algumas dessas avenidas para ver se chegamos a alguma estação ou praça. Provavelmente, desaguaremos num grande mercado...

    Nossos pontos de parada são as revoluções industriais. Diz-se que se a primeira revolução industrial foi a do carvão e do ferro; a segunda, do aço e da eletricidade. Há acúmulos tecnológicos. Estes, provocam melhoria na produtividade, como busca permanente da economia. A terceira revolução é a informacional.

    Podemos acrescentar à siderurgia e à eletricidade, o petróleo. Com este, a indústria química. Lembro-me de que, ainda nos anos da primeira infância, os meninos na rua comentávamos que “os americanos fizeram uma capa que não se molha”. Acostumados aos tecidos de algodão, parecia um deslumbramento admitir-se que uma veste poderia receber a água da chuva sem absorvê-la. A era do plástico vinha se impor.

    O aço, o petróleo, o plástico facilitaram o avanço da indústria automobilística, a satisfazer os sonhos da classe média, a entupir as vias públicas e a disputar espaços urbanos com pedestres. A internacionalização dessa indústria, significa, hoje, a internacionalização dos mesmos problemas.

    A outra avenida é das revoluções políticas, regionais ou mundiais.

    As duas grandes guerras deste século, a de 1914-18 e a de 1939-45, mudaram a geografia política do mundo, as relações de poder, enquanto mostraram a fragilidade das instituições em seus equívocos expansionistas, não raro selvagens. Ensejaram, ao revés, por outra ótica, investimentos maciços em infra-estrutura, via programas de reconstrução, bem a gosto do setor industrial. O Japão transforma-se em potência mundial, hoje a segunda maior economia do globo, depois de ter sido arrasado por duas bombas atômicas despejadas pelos Estados Unidos.

    Duas revoluções regionais, no entanto, tiveram repercussões bem mais amplas. A Revolução Russa, de 1917, e a chinesa, de 1949. Ambas transferindo a estrutura da produção para o domínio do estado, como contraponto às teorias liberais. Cria-se a bipolaridade e a chamada Guerra Fria, com suas influências econômicas. Em 1989, com a queda do muro de Berlim, cai também a organização da União Soviética. E pela primeira vez na história, o mundo é todo capitalista.

    O estudo da população mundial dá margem a uma outra avenida na análise do século 21. O mundo atravessou o século 19, passando de 900 milhões de habitantes para 1 bilhão e 600 milhões. O século 20 incorporou mais de 4,0 bilhões de pessoas a essa estatística, com seus 6,0 bilhões, contabilizados em outubro de 1999.

    O que isso representa? Em primeiro lugar, que os bens da Terra estão sendo mais disputados e em forma bem desigual. No momento, do PIB mundial total, 86% estão com os 20% dos países mais ricos; os 20% mais pobres ficam com apenas 1,0% da renda global. Nesse meio estão 60% de países com renda media, que respondem por 13% do PIB mundial.

    Em segundo, há o fenômeno da urbanização. Corresponde à procura da cidade para residência fixa. Significa ainda que se acelerou a produtividade da estrutura agro-pastoril, liberando mão-de-obra para os setores industriais e de serviços. Ou para o desemprego. Atualmente 75% da população da América Latina estão nas áreas urbanas.

    A constatação de que a taxa de crescimento populacional dos chamados países centrais está decrescendo visivelmente, enquanto a dos países periféricos é mais elevada, motiva preocupações sócio-econômicas e humanitárias. As medidas de proteção ao trabalho dos nacionais têm crescido, bem como as hostilidades aos migrantes em todo o mundo.

    A formação de blocos econômicos é outra característica destes últimos cem anos. Com eles, a criação de instituições financeiras internacionais, sob o pretexto de estimularem o desenvovimento dos países com desequilíbrios de vária espécie. Foi o século, não se pode perder de vista, da realização dos Estados Unidos como superpotência mundial, não obstante o fiasco catastrófico de 1929.

    O crash de 29 alastrou-se por toda a economia de mercado mundial, a partir de Nova Iorque, provocando quebras sem conta de empresas, como um efeito-dominó, e muito desemprego. Foi responsável, no Brasil, por uma crise cafeeira, cuja repercussão, na política, responde pela Revolução de 1930, que levou Getulio Vargas ao poder, com a deposição do paulista Washington Luís.

    A Grande Depressão, que se seguiria por 10 anos após o crash da bolsa novaiorquina, parece ter sido uma correia de transmissão para a eclosão da Segunda Grande Guerra, ao final da qual, em Bretton Woods, nos Estados Unidos, criam-se as bases para fundação do Fundo Monetário Internacional-FMI (1945) e do Banco Mundial.

    O questionamento sobre a filosofia do FMI tem sido crescente, seja pelos erros de diagnóstico de seus técnicos sobre os rumos da economia mundial, ou pela ortodoxia de sua escola, que pode ser resumida no conhecido Consenso de Washington, com mais de uma década de duração. Basicamente, esse “consenso” defendeu políticas econômicas sadias (inflação baixa, controle de deficits orçamentários e contas externas equilibradas), abertura econômica (comercial e financeira), privatização e desregulamentação. Em resumo, menos estado e mais iniciativa privada.

    Em 1957, pelo Tratado de Roma, colocam-se as bases do Mercado Comum Europeu, hoje União Européia, com 15 nações. Em 1960 cria-se a Alalc, Associação Latino-Americana de Livre Comércio, hoje Aladi. Em 1991, funda-se o Mercado Comum do Cone Sul, Mercosul. Em 1995, o Nafta-North American Free Trade Agreement, com EUA,Canadá e México.

    Pelas suas importâncias mundiais, estão na ordem econômica deste século, o Tratado de Maastricht (1992), que aprovou as exigências monetárias e de inflação baixa para os países que aceitariam a moeda única da União Européia, o Euro, finalmente oficializado em janeiro de 1999 por 12 dos 15 membros daquela organização.

    DESAFIOS DA ATUALIDADE

    Com o franqueamento dos mercados à iniciativa privada, e estes valendo-se da telemática, que facilita ações financeiras instantâneas e, ainda, com a existência de países com significativos desequilíbrios estruturais em suas contas, estabeleceu-se frágil relação de forças na economia mundial. Os capitais, voláteis, procuram ninhos passageiros para se aquecerem, atraídos por juros generosos, mas logo batem em revoada, ao mínimo sinal de instabilidade, de qualquer natureza. Não assumem qualquer culpa pelos efeitos que provocam.

    Em 1996, o presidente do Federal Reserve Bank-Fed (banco central dos EUA), Alan Greenspan, advertiu os especuladores quanto à corrida desmedida ao mercado de bolsa. Ele usou a expressão “exuberância irracional” para esse fenômeno, como a mostrar um sinal amarelo no mercado. Sua preocupação centrava-se no risco de uma reversão daquele processo, com potencial destrutivo para os mercados e a sociedade mais ampla. O desejo de um desinchaço da economia e das bolsas de forma não-traumática chamou-se de “pouso suave”.

    Nas últimas três décadas as empresas high tech das áreas de biotecnologia e da computação avançaram na preferência dos investidores. Para se ter uma idéia do que isso representa, a Microsoft, em 1999, com patrimônio de US$ 7,2 bilhões, faturava US$ 16 bilhões, lucrava US$ 5 bilhões e tinha valor em bolsa de US$ 510 bilhões.

    São tempos de acelerada transnacionalização econômica, de duríssima competição internacional, com fusões e incorporações de montante assustador. Recentemente, em 1999, dava-se a fusão de três grandes bancos japoneses, cujo capital iria para o equivalente a 1 (um) trilhão e 300 (trezentos) bilhões de dólares, quase o dobro do PIB brasileiro.

    As grandes questões da atualidade, em razão desse quadro, passaram a girar em torno, resumidamente, dos seguintes itens:

    1) das dificuldades do capitalismo em criar mecanismos de distribuição na mesma velocidade da de acumulação; os excedentes da produtividade têm dificuldade para gerar novos consumidores;

    2) da redução do desemprego no mundo, gerado pela reestruturação dos modos de produção, pela desmaterialização do trabalho e pelo aumento da produtividade;

    3) do controle dos fluxos de capital;

    4) do encontro do desenvolvimento sustentado, que implica, além da questão econômica, a do meio ambiente; e na melhoria da qualidade de vida para todos;

    5) do fortalecimento do estado - agora em novas funções - que está perdendo sua capacidade de regulamentação da economia, ante o gigantismo da corporações econômicas privadas. Aí está o novo totalitarismo, na definição de Robert Kurz, sociólogo e ensaista alemão.

    Essas questões estão permeadas, desde o início, pela visão do homem sobre a vida e a sociedade. As teses de Adam Smith, Darwin, Spencer, Marx ou Keynes, transpassando-se dos fins do século 16 ao nosso, ora com base numa suposta lei natural, que endeusa a concorrência, defendendo que os fins justificam os meios, ora estimulando a intervenção do trabalhador (a revolução) na busca de melhores frutos do seu trabalho, e a predominância do estado nos investimentos, tem sido efetivada por ciclos não raro dolorosos.

    As questões do valor em geral, do valor-trabalho em particular, da propriedade, dos juros, estão embasadas por princípios do ser econômico, visto apenas como consumidor, agredido pelo mundo publicitário, envolvido pelas grandes redes empresariais.

    Não obstante, os acúmulos da própria história das instituições internacionais, a exemplo da ONU, resultam em novos conceitos para medir o chamado desenvolvimento dos países. Se até há pouco utilizava-se apenas a renda per capita, agora tem-se o Índice de Desenvolvimento Humano - IDH, que leva em conta, além da renda, os fatores educação e saúde, na avaliação dos países.

    O ser espiritual, contudo, ainda permanece nas brumas da dúvida, do preconceito e do interesse. Perdido nos conceitos imprecisos do espiritualismo, vigiado pelo sectarismo interesseiro, é quase um desconhecido. E como tal, os princípios de justiça, liberdade e solidariedade, têm avançado em ritmo lento, incompatível com a concentração tecnológica e de renda no mundo.

    Em razão desse quadro, não se está imune a turbulências sociais na marcha da sociedade e da própria democracia. Assim prevê Allan Kardec, quando trata da Lei do Progresso n’O Livro dos Espíritos, questão 783. “Há o progresso regular e lento que resulta da força das coisas; mas quando um povo não avança bastante rápido, Deus lhe provoca, de tempos a tempos, um abalo físico ou moral que o transforma”.

    A filosofia espírita, ao lidar com o ser, enquanto espírito permanente, tem conteúdo para direcionar e redirecionar o móvel da ações humanas. Sua ética leva ao respeito natural de todos para com todos, substituindo a subjugação pela solidariedade, a força pelo amparo, a ignorância pela educação, pressupostos de um mundo melhor.

    Exclusivo para o Site Pense - dezembro de 2000.

    José Rodrigues é jornalista e economista. Foi redator do jornal Espiritismo e Unificação e presidente da Divulgação Cultural Espírita Editora (Dicesp).